A conjuntura Histórica

Atualizado: Mar 23

Vivemos no mundo da opinião?

Em conversas informais, eventualmente pode surgir uma informação sobre algum evento ou personagem do passado que é usado para reforçar ou descontruir um argumento. Por exemplo, uma revolução ou um governante, um fenômeno social de amplo impacto como sistemas ou sistema comunista, ou ainda questões como a ideologia de gênero. Quando o debate ocorre de maneira informal e dentro de um grupo reduzido e controlado de pessoas, as opiniões permanecem em um campo sem grandes impactos no conjunto social. Entretanto, quando são expostas para uma dimensão pública e envolve um grande conjunto de pessoas, as informações podem ser transmitidas de maneira doutrinária e podem assumir uma construção que deve despertar a atenção de todos e ser objeto de cuidados.

Até pouco tempo, havia a utopia de que a difusão de informação levaria as pessoas a um nível de melhor compreensão de seu lugar no mundo, de respeito a si e aos demais e de análises melhor fundamentadas. A Era da Informação revelou uma defasagem nesse processo, porque a construção e a distribuição de informações se tornaram mais dinâmicas, mas, também, menos precisas em determinados contextos. Deixaram de ser apenas ambientes limitados fisicamente e passaram a ser disseminadas livremente. Não obstante, a qualidade da informação pode não ter seguido o mesmo ritmo. A facilidade de acessar e distribuir informação tem facilitado a difusão de dados frágeis, incorretos ou até mesmo manipulados intencionalmente.

Ao observar algumas falas distribuídas pelas redes sociais, comentários em notícias e sobre estudos acadêmicos, pode-se notar um preocupante desconhecimento sobre a história. Não apenas dos fatos, eventos e processos correlacionados, mas também a respeito do tempo histórico e da conjuntura. Cada acontecimento histórico tem sua própria circunstância e tempo que não podem ser ignorado pelo analista, haja vista, que isso poderia conduzir inviabilidade de toda a análise.

O respeito à conjuntura é uma forma de evitar conclusões equivocadas e, principalmente, a manipulação do passado. Quando uma pessoa ou um grupo, ainda que com boa intenção, atribui responsabilidades a um evento que não estavam presentes em sua conjuntura, termina por alterar o próprio evento sem, no entanto, oferecer a possibilidade de reparações e defesa ao evento. Cada evento e fenômeno do passado precisam ser examinados dentro de sua conjuntura para que sejam entendidas as razões que lhe conduziram a uma situação.

Por exemplo, sem a pretensão de expressar juízo de valor sobre a Revolução Bolchevique ou sobre o Concilio Vaticano II, podemos observar que alguns analistas não especialistas usam seus canais de comunicação desrespeitando a premissa elementar de respeito à conjuntura ao atribuir responsabilidades e consequências que não podem ser atribuídas aos mesmos. Toda análise deve levar em conta o contexto do objeto analisado. Pode parecer um absurdo querer relacionar um dos eventos mais importantes da Igreja Católica no século XX ao acontecimento que sacudiu o mundo há cerca de 100 anos. Entretanto, não é absurdo, porque o Concilio Vaticano II e a Igreja na década de 1960 queriam frear algumas das consequências da Revolução Bolchevique ocorrida em 1917. Não obstante, atribuir toda a responsabilidade da “crise” do secularismo à revolução russa é desrespeitar a conjuntura histórica, assim como atribuir a dessacralização às reformas implementadas pelo Vaticano II significa ignorar um série de circunstâncias sociais, econômicas, políticas e culturais latentes na metade do século XX. Qualquer um destes eventos históricos, bem como qualquer outro que se possa examinar, precisam ser entendidos dentro de seu contexto. Qualquer experimento de deslocá-los de sua conjuntura é uma falsificação do passado e portanto convergente com práticas associadas a sistemas autoritários, que procuraram apagar ou manipular o passado para beneficiar o sistema enganando a população e a cidadania. Ainda que a Sociedade da Informação não tenha conseguido construir uma sociedade utopicamente mais civilizada, deveria, pelo menos, favorecer a melhoria da qualidade da informação para que tentativas de falseamentos do passado não sejam assumidas como verdades, como objetiva fazer alguns grupos que veem complôs para doutrinar estudantes ou lobbies para a entrada do comunismo no seio da Igreja católica.


Autor: Reinaldo Cordova

​Doutor e mestre em História pela Universidad de Murcia (Espanha). Especialista em Filosofia. Graduado em História com experiência profissional com na área de História Contemporânea, História da Igreja e História da Família. Professor na Educação Básica e no Ensino Superior. Participa regularmente de atividades acadêmicas, como seminários e congressos nacionais e internacionais. Membro fundador do "Projeto Colaborar". Autor de artigos e publicações sobre educação.

Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/8398335033629040

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