• Marcone Marques

Como vamos sair da pandemia? (Do ponto de vista psicológico, é claro!)

Ouvindo: “Segurança”, dos Engenheiros do Hawaii

Escute em: https://spoti.fi/3gTQbmt



Vamos ser sinceros: antes mesmo do início da pandemia, muitos de nós já estávamos passando por situações complicadas em nossas vidas. Uma dificuldade no trabalho aqui, uma crise no casamento acolá, problemas na educação dos filhos outro dia, conflitos sociais e políticos, o time que não ganha nada... tinha de tudo um pouco apertando nossos calos. Aí chega a pandemia pra terminar de lascar com tudo e fazer valer a máxima de que “nada é tão ruim que não possa piorar”.


Ok, mas o que vamos fazer com isso? Como vamos sair da pandemia? (Do ponto de vista psicológico, é claro!).


Num primeiro momento, não dá pra gente não pensar no lado negativo da coisa. Tem muita gente sofrendo, morrendo... gente que perdeu alguém que ama, gente que se desespera quando vê o descaso com que a situação toda é tratada... você se matando pra ficar em casa fazendo uma quarentena decente e aquele seu amigo postando foto do bar, como se nada estivesse acontecendo. Estava lendo sobre “O Potencial Traumático da Pandemia de COVID-19” e os autores comentavam o seguinte:


Do ponto de vista sociológico, uma pandemia com as dimensões da atual é um dos acontecimentos traumáticos coletivos que são catalisadores de profundas mudanças na humanidade, ao lado das guerras, das revoluções, das grandes recessões econômicas e das graves crises ambientais (em que há um esgotamento de recursos naturais, por exemplo).

Gente, eles colocam a situação que estamos vivendo em níveis semelhantes aos de guerras, por exemplo! Se a gente for pensar direitinho, no nosso caso aqui do Brasil, só não tem a revolução. De resto, está tudo aí.


Aí você olha pra mim e diz: “Marcone, sério mesmo? Você quer discutir como vamos sair da pandemia e vai tentar levar essa conversa para algo positivo?”

E eu respondo: Sim. Eu vou. E sabe por quê? Porque na história da humanidade a gente conseguiu superar tudo isso, em várias ocasiões. Aos trancos e barrancos, de uma forma ou de outra, a gente resistiu e chegou até aqui. E, mais uma vez, acredito que vamos conseguir. Não vai ser fácil, não vai ser sem dor e sacrifício. Mas vamos conseguir.


Do ponto de vista psicológico, eu preciso ser bem honesto com vocês: a pandemia não está sendo fácil para ninguém e os impactos são severos. Compartilhei isso com vocês nos textos anteriores quando comentei sobre o aumento da demanda nos consultórios, sobre a avaliação da OMS no impacto da pandemia na saúde mental. Mas, também do ponto de vista psicológico, penso que temos potencial para reviravoltas, mesmo em cenário tão incerto. Vejo que estamos aprendendo a ressignificar nossas relações interpessoais e a dar mais valor nas questões que realmente importam e que, muitas vezes, havíamos deixado de lado por conta daqueles problemas que citei lá no início do texto. Saúde física e mental, relações consistentes e verdadeiras... essas coisas estão voltando a ter o destaque que sempre precisaram ter em nossas vidas. Se pudermos (ou soubermos) aproveitar essas situações, talvez a gente possa sair desta pandemia melhores do que entramos.


Precisamos urgentemente olhar pra frente, pro futuro. E com o cuidado diário começar a plantar o que queremos colher mais adiante. Aprender com toda essa loucura que temos vivido e construir um futuro saudável, decente. Devemos isso pra gente e para todos os que amamos e que, infelizmente, não sobreviveram para traçar esses planos conosco.


Hoje me despeço da mesma forma que Hobsbawm em seu clássico “Era dos Extremos”: pensando no quanto precisamos mudar e evoluir para construirmos o futuro que queremos.


Contudo, uma coisa é clara. Se a humanidade quer ter um futuro reconhecível, não pode ser pelo prolongamento do passado ou do presente. Se tentarmos construir o terceiro milênio nessa base, vamos fracassar. E o preço do fracasso, ou seja, a alternativa para uma mudança da sociedade, é a escuridão.


Autor: Marcone de Souza Marques Psicólogo - CRP 01/15953

Psicólogo formado pelo UniCEUB em 2008, trabalhou com Psicologia Organizacional nos segmentos de Gestão do Conhecimento, Treinamento e Desenvolvimento e na elaboração de soluções e estratégias de capacitação para diversos públicos. ​Sua atuação na área clínica, especialmente dirigida a adolescentes e adultos, motivou a busca por uma especialização em Teoria Psicanalítica, com vistas a ampliação de seu escopo teórico e qualificação de sua prática clínica. Também se dedica ao estudo de outras abordagens, como a Psicologia Analítica de Jung e a Teoria da Subjetividade de Fernando González Rey.

Linkedin: https://www.linkedin.com/in/marcone-marques-327728a6


Referências:


BARROS, E. M. R; BARROS NETO, A.M.R; BARROS, E.L.R. O potencial traumático da pandemia de covid-19. Revista Brasileira de Psicanálise, São Paulo, v.54, n.2, p.45-57, 2020.


HOBSBAWM, E. Era dos Extremos - O breve século XX - 1914 - 1991. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.

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