CPI e os caminhos a seguir

Quem acompanha política em Brasília pode até se cansar ou desanimar de vez em quando, mas dificilmente morrerá de tédio.



Quem acompanha política em Brasília pode até se cansar ou desanimar de vez em quando, mas dificilmente morrerá de tédio. A todo momento somos bombardeados por informações novas que chegam na tela do celular e pelas redes sociais. Desde que o STF determinou a instalação da CPI da Covid no Senado, é raro o dia em que não haja alguma hashtag nos top trends que não tenha relação com o tema.


A Comissão do Senado já ouviu diversas autoridades, mas a sessão de depoimento do Fabio Wajngarten foi, até agora, a que trouxe mais emoções, seja pelas falas do ex-Secretário de Comunicação seja pelas intervenções dos parlamentares. Teve acusação de mentira, ameaça de prisão, discussão entre senadores. Teve até deputada batendo boca com membros da CPI e adjetivações recíprocas de "vagabundo" entre Flávio Bolsonaro e Renan Calheiros.


Recordemos que a motivação para a convocação do Wajngarten foi uma entrevista à Revista Veja, na qual ele afirmou que houve “incompetência” na negociação de vacinas por parte do Ministério da Saúde. Antes mesmo de seu depoimento, muitos já o consideravam como “homem-bomba” na CPI.


Segundo o cronograma inicialmente aprovado pela CPI, a oitiva do ex-secretário deveria ocorrer depois do depoimento de Pazuello, ex-ministro da Saúde. Este, contudo, alegando ter tido contato com pessoas que testaram positivo para COVID, teve sua presença adiada na comissão. Nos grupos de whatsapp e nos corredores de Brasília, já começam a circular preocupações de que isso pode ter sido um tiro-no-pé do governo. O sufoco que Wajngarten passou na CPI - e suas incoerências e revelações - podem ter dado mais munição contra o governo e contra o ex-ministro.


Especula-se que o governo, insatisfeito com o estilo da sua tropa de choque na CPI na sessão de ontem, chamou o senador Bolsonaro às pressas à comissão - vale lembrar que ele chegou lá sem terno e sem gravata - para tentar contra-atacar o relator, que já tinha ameaçado de prisão o depoente. Essa, aliás, tem sido a estratégia de comunicação do governo com suas bases: ao sentir-se coagido, parte para o ataque.

Nesse sentido, vale notar que, desde o fim da sessão (12) até a manhã de hoje (13), a hastag #RenanVagabundo está no top trending do Twitter.


Voltando às falas do ex-secretário - e já antecipando as discussões da semana que vem, quando Pazuello deve ser ouvido.

Por um lado, Wajngarten disse que o ministério foi incompetente na negociação de vacinas. Por outro lado, o ex-ministro disse que “um manda e outro obedece”.

Se todos os caminhos levam a Roma; na CPI, todos os caminhos - por enquanto - levam a Pazuello. Resta saber como os membros da comissão e, em especial, o relator interpretará os fatos: se há meramente uma incompetência no ministério da saúde, ou se sua atuação é resultado de ordens superiores.

Autor: Lucas Cordova Machado


Mestrando em Poder Legislativo. Especialista em Processo Legislativo pelo Centro de Formação, Treinamento e Aperfeiçoamento da Câmara dos Deputados (2011). Graduado em Ciência Política pela Universidade de Brasília (2009). Tem experiência na área de Ciência Política, com ênfase em Processo Legislativo. Exerceu a função de Assessor Legislativo em Liderança Partidária na Câmara dos Deputados.

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