• Reinaldo Cordova

Dia mundial da Educação

Hoje é um dia dedicado a observar a importância da educação.



Quase todas as pessoas consideram ser fundamental investir em educação. Claro, não podemos generalizar, porque sabemos que algumas pessoas se negam a investir nessa dimensão. Contudo, consideremos o que é entendido pela maioria da humanidade e por grandes intelectuais, a Educação deve ser vista como um bem coletivo.


A educação pode ocorrer em muitos ambientes e formas. Na família, que é a instituição reconhecida por transmitir os primeiros ensinamentos aos seres humanos. Na escola, onde se aprende conhecimentos formais e necessários para o desenvolvimento técnico e científico. E, durante a vida, nos mais diversos espaços possíveis.


Hoje é um dia em que devemos pensar e repensar o sentido do sistema escolar. É fundamental refletir sobre o que se ensina hoje nas escolas, porque o futuro se abre para uma conjuntura disruptiva na qual saber um pouquinho de física, de história e de línguas não assegurará um trabalho ou o entendimento dos fatos, eventos e processos cotidianos. A escola e a educação se revelam essenciais para o ser humano.


Mas qual escola estamos procurando? O que deve ser ensinado? Precisamos de mais conteúdo ou de m ais metodologia?

Segundo alguns investigadores, como Kai-Fu Lee e Yuval Harari, o mundo está sendo transformado tão rapidamente que os jovens de hoje deverão estar preparados para se reinventar mais rapidamente do que a geração X ou Y esteve. O mundo para nossos filhos será muito menos estável que é o nosso. Pode parecer um jogo de adivinhação, mas não é! Se trata de um trabalho fundamentado na metodologia dedutiva.


Quando observamos a geração X (nascidos entre os anos 1960 e 1970) se evidencia como as transformações foram velozes e profundas. Deixamos de aprender com enciclopédias Barsa para verificarmos dados atualizados em tempo real pela Wikipédia. Deixamos de usar telefones públicos para fazermos videoconferências. Nossos carros são elétricos e viagens espaciais ocorrem anualmente.


A educação de hoje precisa atualizar-se. Permanecer com uma educação fundamentada em dados expostos em livros didáticos, muitas vezes, atende somente aos interesses do mercado editorial e de um sistema obsoleto, desatento às demandas sociais, econômicas e existenciais das pessoas e das comunidades. Os gestores públicos, responsáveis por elaborar as legislações, se preocupam muitas vezes em deixar sua marca na história, mas sem considerar as questões imperativas do agora e do futuro. Por exemplo, quando consideram significativo inserir mais conteúdo ao currículo ou simplesmente ampliar a carga horária nas escolas.


Há 40 anos uma pessoa poderia estudar em um colégio na América do Sul sem necessitar conhecer ou preocupar-se com os eventos de outros continentes. O conteúdo aprendido serviria para suas atividades cotidianas e profissionais. Na atualidade, os trabalhos não estão apenas nas empresas de sua cidade natal, senão, em qualquer parte do mundo. O número de pessoas dedicadas a trabalhos remotos se expande a cada dia. Portanto, uma visão demasiada regionalista condicionará a formação de grupos de pessoas desconectadas da rede global e produzirá um grupo de indivíduos “a margem” dos movimentos sociais.


Quando observamos alguns trabalhos acadêmicos, constatamos que os intelectuais dizem que a educação está em crise. Mas isso não é novidade. Sócrates provocava seus discípulos e se opunha aos sofistas porque entendia que, em algum sentido, a aprendizagem estava em crise e era necessário desenvolver novas metodologias para formar pessoas pensantes, indivíduos dentro de uma comunidade capazes de refletir sobre si e sobre o coletivo, sem esperar a voz dos sábios serem pronunciadas.


Tomás de Aquino elaborava suas monumentais obras, a partir de suas análises e debates, para oferecer uma visão que ele avaliava como adequada para seus contemporâneos, porque, em último sentido, interpretava que as pessoas não tinham a educação correta sobre o mundo à sua volta. Ensinava a poucos, porque, afinal de contas, era desnecessário ensinar à massa. Ainda assim, entendia seu tempo como uma conjuntura de crise, de desconhecimento.


Hannah Arendt e Edmund Husserl também disseram que havia um problema na educação. O ser humano seria pouco preparado para entender a essência da existência. A crise na educação conduzia à fragmentação do próprio ser. Era preciso reformar o sistema e alterar o rumo adotado pela sociedade humana. Mas qual caminho seria adotado? Difícil dizer, tendo em vista a quantidade de opções.


Passados tantos anos, os intelectuais continuam a dizer que a educação está em crise. Na atualidade, as avaliações globais, como PISA, não solucionaram os problemas da educação. Talvez geraram outros problemas porque ofereceram dados para comparações desequilibradas. Ainda que seja possível identificar as carências em algumas regiões, podemos constatar que os sistemas apenas sofreram transformações. As preocupações de professores, gestores e políticos dificultam mudar o sistema. Especificamente no Brasil nos damos conta deste fenômeno.


Nos aproximando à situação brasileiro, verificamos que, para o professor Pedro Demo, um dos problemas dos atores educacionais seria a relutância em mudar os rumos da própria educação. Somos demasiado influenciados pelo sistema para aceitarmos alterá-lo. Como o pesquisador Leonardo Soares diz:


o problema conhecido, muito vezes, é considerado mais acolhedor do quem a possibilidade de melhora que é desconhecida.

Uma resignação pode ser uma das principais causas de que os alunos se vejam desmotivados. Entretanto, não apenas os estudantes, também os professores estão insatisfeitos. Mas é a insatisfação com o conhecido.


Neste dia mundial da educação é verificável que, enquanto escrevo este ensaio, milhares de pessoas estão à margem do conhecimento técnico e científico. Seu tempo histórico é ainda o do século XVIII. E se os prognósticos dos especialistas estiverem certo, não apenas elas, mas também seus filhos e netos estarão destinados a viver à margem da sociedade produtiva, de consumo e com qualidade de vida. Mesmo assim, dizemos que o sistema está em crise, mas não porque essas pessoas foram excluídas, senão porque tantas outras, que receberam alguma formação formal se verão colocadas de lado, como sujeitos imprestáveis.


A educação precisa ser alterada, porque, depois de tantos anos em funcionamento, ainda não conseguiu cumprir uma de suas principais promessas: democratizar o saber e garantir o desenvolvimento socioeconômico dos habitantes de nosso planeta. Esse dia deve servir como um chamado de atenção, como um alerta. Precisamos trabalhar pelo bem coletivo, pois a nossa sobrevivência civilizacional depende disso.



Autor: Reinaldo Cordova

​Doutor e mestre em História pela Universidad de Murcia (Espanha). Especialista em Filosofia. Graduado em História com experiência profissional com na área de História Contemporânea, História da Igreja e História da Família. Professor na Educação Básica e no Ensino Superior. Participa regularmente de atividades acadêmicas, como seminários e congressos nacionais e internacionais. Membro fundador do "Projeto Colaborar". Autor de artigos e publicações sobre educação.

Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/8398335033629040