Esse negócio de terapia online funciona mesmo?

Ouvindo: “Pela internet”, Gilberto Gil.

Escute em: https://spoti.fi/3z4Bu5Z



“Marcone, eu sei que a pandemia não acabou e que, no que for possível, temos que ficar em casa. Mas esse negócio de terapia online funciona mesmo?”

Pra começo de conversa, preciso te dizer: por mais que eu tenha me adaptado bem ao atendimento online, sinto falta do presencial. Gosto do ambiente do consultório, de ver os clientes pessoalmente, de algumas nuances que o atendimento presencial possibilita ao processo. Atualmente, tenho levado ao consultório somente casos muito específicos pois, ainda que a condição de profissional de saúde tenha me permitido vacinar, sei que muitos de meus clientes e suas famílias ainda não tiveram essa chance. Então, vamos nos guardar no que for possível, combinado?


De modo geral, a psicologia já ensaiava alguns passeios no mundo virtual. É bem verdade que o atendimento remoto era a exceção e não a regra e costumávamos usar esse tipo de recurso em situações muito particulares, como uma viagem de um cliente que não poderia ficar sem sessões por um período, por exemplo. Mas a pandemia não quis saber de conversa e tratou logo de acelerar a migração do modelo de atendimento, não só dos psicólogos, mas de várias profissões. Ou vocês acham que os professores, por exemplo, não tiveram que se virar nos 30 para mudar o modelo de ensino da noite pro dia?


No caso da psicologia, o desafio era: como podemos manter os atendimentos com um nível de qualidade adequado num momento tão desafiador e de tanta demanda? Lembra do texto “Por que precisamos falar sobre saúde mental?", onde compartilhei com você a expectativa da OMS sobre o aumento das demandas de saúde mental? A psicologia, em suas diferentes abordagens e áreas de atuação, logo tratou de se mobilizar para responder à altura.


Vamos pensar em dois tipos de pessoas nessa situação: os que já estavam em terapia e os que começaram durante a pandemia. No primeiro caso, houve uma adaptação, uma mudança prática para o cliente e o terapeuta. Eles precisaram rever alguns pontos sobre como as coisas aconteciam e foram se adaptando ao novo formato. No segundo caso, contudo, o processo terapêutico já se iniciou nesse novo modelo. Penso que podemos dizer que foi mais fácil, por não haver uma referência de antes e depois.


Mas, Marcone, você está trazendo isso só da sua experiência ou já temos estudos e pesquisas a esse respeito?

Os dois. Falo de minha experiência por estar vivendo isso (precisei aumentar meus horários disponíveis, por conta da demanda na pandemia) e falo pela pesquisa acadêmica que realizei ao longo do primeiro semestre sobre o assunto. O tema de minha monografia de conclusão da pós graduação em Teoria Psicanalítica foi “Impactos da Pandemia na Psicanálise: As Novas Configurações do Setting Terapêutico”, onde pude estudar as formas encontradas pela Psicanálise para se adaptar nesse novo cenário. Um exemplo das referências que encontrei a respeito dizia que o ambiente virtual facilita o processo analítico.

Para Carlino apud Teixeira (2016, p.47) a terapia no modelo virtual pode contribuir de forma positiva com a condução do processo, visto permitir acesso aos conteúdos inconscientes com menor nível de resistência.

O atendimento online ainda tem espaço para evoluir bastante, da mesma forma que o atendimento presencial. Mas, depois de um ano e meio atendendo à distância, acompanhando meus clientes e estudando a fundo o tema, posso dizer que esse negócio de terapia online funciona mesmo. E volto a dizer: faça terapia. Vai fazer um bem danado pra você.


Autor: Marcone de Souza Marques Psicólogo - CRP 01/15953


Psicólogo formado pelo UniCEUB em 2008, trabalhou com Psicologia Organizacional nos segmentos de Gestão do Conhecimento, Treinamento e Desenvolvimento e na elaboração de soluções e estratégias de capacitação para diversos públicos. ​Sua atuação na área clínica, especialmente dirigida a adolescentes e adultos, motivou a busca por uma especialização em Teoria Psicanalítica, com vistas a ampliação de seu escopo teórico e qualificação de sua prática clínica. Também se dedica ao estudo de outras abordagens, como a Psicologia Analítica de Jung e a Teoria da Subjetividade de Fernando González Rey.


Linkedin: https://www.linkedin.com/in/marcone-marques-327728a6



Referências:

TEIXEIRA, A. M. O atendimento terapêutico online de orientação psicanalítica: processos de subjetivação e significação. 2016. Tese (Mestrado em Ciências da Linguagem). Universidade do Vale do Sapucaí, Pouso Alegre, MG, 2016.

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