Futebol e política se discutem, sim!

Há um ditado popular que diz “política, futebol e religião não se discutem”. Mas será mesmo verdade?



Esses assuntos são frequentes nas rodas de amigos, conversas de bar (agora com menos frequência em função da pandemia), postagens na internet etc. Então neste espaço - que não foge de polêmicas - também iremos tratar dos dois primeiros: política e futebol.


Nas últimas semanas, a realização da Copa América está no centro dos debates políticos do Cone Sul. Inicialmente a competição estava prevista para Colômbia e Argentina, mas os países-sede abriram mão da realização do evento. A Colômbia está sendo palco de violentos protestos populares contra a reforma tributária. A Argentina está passando “pelo pior momento da pandemia”, segundo o Presidente Fernández.

Pouco tempo depois da desistência dos “hermanos”, Conmebol e Bolsonaro anunciaram a realização do evento no Brasil (diligência não observada na compra de vacinas da Pfizer…). Diante disso, cabe a pergunta: “Nossa situação está tão diferente da Colômbia e Argentina, em termos políticos e sanitários, para sediar a Copa América?


Aqui nas terras tupiniquins, o Presidente - apesar de ter apoio de alguns setores da sociedade, como visto nas manifestações a favor do governo - começa a ser alvo de protestos organizados por oposicionistas. Em relação à pandemia, ainda estamos com altos índices de contágio e mortes, bem como com vacinação lenta, proporcionalmente ao tamanho da população.


Ao redor do mundo - principalmente nos EUA e na Europa -, eventos esportivos de grande magnitude estão retomando, mas os países já estão com níveis bem mais controlados da pandemia e com estágio avançado de vacinação. Então novamente volta a pergunta: “Por que realizar o evento no Brasil?”. A explicação não pode ser outra senão política: uma tentativa de demonstrar normalidade social, política, sanitária e econômica; e, com o torneio internacional, mudar o foco dos reais problemas no país.


Futebol é uma “paixão nacional”, e o presidente Bolsonaro não foge à regra nessa paixão. Vale lembrar que, em várias ocasiões, ele aparece com camisas de futebol. Isso traz uma enorme carga simbólica de homem simples e do povo. Quando se fala de futebol e política não há como deixar de mencionar a Copa de 1970, que foi utilizada pelo presidente Médici - outro presidente que gostava de futebol e de aparecer como “homem do povo” - como instrumento de propaganda política do regime militar e estímulo ao patriotismo do povo.


Naquela ocasião, o sucesso da Copa por “uma das seleções mais encantadoras de todos os tempos também contribuía para a normalização do período mais repressor e sanguinário da ditadura militar.”[1] Agora, a realização do torneio sul-americano pode servir para ofuscar a situação sanitária e econômica pela qual estamos passando. Se a história se repete, primeiro como farsa, e depois como tragédia, então o slogan "Brasil; ame-o ou deixe-o" de outrora é o “Vai pra Cuba” de agora.



Notas de rodapé:


[1] https://brasil.elpais.com/esportes/2020-06-07/a-selecao-que-presenteou-a-ditadura-com-uma-taca.html



Autor: Lucas Cordova Machado


Mestrando em Poder Legislativo. Especialista em Processo Legislativo pelo Centro de Formação, Treinamento e Aperfeiçoamento da Câmara dos Deputados (2011). Graduado em Ciência Política pela Universidade de Brasília (2009). Tem experiência na área de Ciência Política, com ênfase em Processo Legislativo. Exerceu a função de Assessor Legislativo em Liderança Partidária na Câmara dos Deputados.

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