Psicólogo tem religião?

Ouvindo: “Eu vi Obatalá”, Mateus Aleluia.

Escute em: https://spoti.fi/3hORovA



Então... essa questão é uma daquelas bem polêmicas, mas posso dizer pra vocês o seguinte: as pessoas que professam alguma fé, qualquer que seja, e são profissionais da psicologia, podem dizer que sim, psicólogo tem religião. Quem não professa ou não crê, pode dizer que psicólogo é ateu, sem problemas.


Agora... se você me perguntar se a Psicologia tem religião, aí a resposta é direta e reta: não.

O psicólogo pode ter religião, time de futebol, preferência política (#elenão), o que for. Enquanto sujeito, ele tem tudo isso em sua constituição e, muitas vezes, sua posição vai ser bem diferente da sua. E tudo bem.


Mas a Psicologia não tem nada disso. Começou o atendimento (e isso vale desde o envio do whatsapp para marcar a primeira sessão), todos os “a priori” do psicólogo somem e deixam espaço única e exclusivamente para a Psicologia, essa sim, desprovida de todas essas preferências. Na hora de atender o que conta é a técnica, a abordagem, a ética do profissional.


Sabe o que diz o nosso Código de Ética a este respeito? Olha só:


Art. 2º – Ao psicólogo é vedado:
b) Induzir a convicções políticas, filosóficas, morais, ideológicas, religiosas, de orientação sexual ou a qualquer tipo de preconceito, quando do exercício de suas funções profissionais;

Quer ver um exemplo?


Imagine um cristão que se forma e começa a atuar como psicólogo. A maioria das religiões cristãs defende o casamento como uma instituição sagrada e eterna. Esse cristão pode defender essa tese enquanto cristão, nos espaços que isso é adequado (seu círculo religioso, sua missa, seu culto, etc). Isso ele não faz enquanto psicólogo, ele faz nos outros papéis que exerce. Mas, se ele começa um atendimento e um cliente traz uma demanda que envolve separação, não cabe a ele dizer que, de acordo com sua crença, ele não concorda. Sua obrigação, enquanto psicólogo, é acolher essa demanda e analisar como ela afeta seu cliente positiva e negativamente. Isso porque, além dos aspectos técnicos e éticos, temos que considerar que o cliente não necessariamente comunga da fé deste cristão que resolveu atuar como psicólogo.


“Mas, Marcone, se o psicólogo tem religião, ele não vai usar nada de sua fé no consultório?”. Claro que vai. Mas só se a demanda pedir, não se for de seu desejo ou por alguma imposição de sua fé. Se ele sabe que seu cliente comunga de uma crença específica e ele conhece algo dessa fé, nada impede o uso de metáforas para interpretar alguma situação, por exemplo. Do mesmo jeito que seria se o cliente conhecesse de filosofia, quadrinhos ou música. Tudo isso pode ser recurso para ajudar no processo terapêutico, mas jamais instrumento de conversão do cliente para a fé da pessoa que exerce a psicologia.


O foco da Psicologia é o cliente, não o terapeuta. Então, se o psicólogo tem religião, time ou preferência política, isso pouco importa. Importa o que ele tem de técnica e ética e como ele pode acolher e atender as demandas geradas, entre outras razões, pela religião, time ou preferência política do paciente.

Essa é a Psicologia que, de fato, vai fazer diferença na vida das pessoas. Os psicólogos precisam estar prontos para isso e os clientes precisam ter segurança de que isso vai acontecer da forma mais correta e segura possível.


E lembrem-se: os psicólogos têm um código de ética para prestar contas e uma autarquia para acompanhar eventuais desvios de conduta. Na dúvida, acionem sempre o Conselho de Psicologia. A pessoa que atua como psicólogo pode ter religião sim, mas a pessoa no exercício da Psicologia, nunca.


Autor: Marcone de Souza Marques Psicólogo - CRP 01/15953


Psicólogo formado pelo UniCEUB em 2008, trabalhou com Psicologia Organizacional nos segmentos de Gestão do Conhecimento, Treinamento e Desenvolvimento e na elaboração de soluções e estratégias de capacitação para diversos públicos. ​Sua atuação na área clínica, especialmente dirigida a adolescentes e adultos, motivou a busca por uma especialização em Teoria Psicanalítica, com vistas a ampliação de seu escopo teórico e qualificação de sua prática clínica. Também se dedica ao estudo de outras abordagens, como a Psicologia Analítica de Jung e a Teoria da Subjetividade de Fernando González Rey.


Linkedin: https://www.linkedin.com/in/marcone-marques-327728a6



Referências:

RESOLUÇÃO CFP 010/05 - Código de Ética Profissional do Psicólogo. Acessado em: 24 de mai. de 2020. Disponível em: <https://site.cfp.org.br/wp-content/uploads/2012/07/codigo-de-etica-psicologia.pdf>

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