• Marcone Marques

Racismo é burrice!

Ouvindo: “14 de Maio”, Lazzo Matumbi

Escute em: https://spoti.fi/3bAvit4



13 de maio tivemos o dia da abolição da escravatura. Um dia que me divide muito entre a comemoração por, finalmente, termos acabado com a escravatura em nosso país (o último das américas a fazer isso, diga-se de passagem) e a tristeza por saber que, “no dia 14 de maio eu saí por aí; não tinha trabalho nem casa, nem pra onde ir” e que, mesmo assim, ninguém fez ou faz nada para mudar isso.


Duas coisas não fazem o menor sentido pra mim. A primeira, é mantermos o racismo como sistema vigente, estruturado. Ok, eu sei que estamos voltando alguns séculos na evolução humana e precisando discutir novamente se a terra é plana. Mas, pra ser bem resumido na questão, vamos de Gabriel, o Pensador: “Racismo é burrice”. Ainda mais em nosso país em que todos – TODOS, SEM EXCEÇÃO – somos miscigenados. Ser racista num contexto como esse é, além de burro, suicida, pois essa situação cedo ou tarde vai se voltar contra você. Tá achando que não é bem assim? Então pergunta praquele brasileiro que mandou uma carta pra uma organização nazista alemã e recebeu a sutil resposta de que não aceitam latinos. Seu racismo vai se voltar contra você, cedo ou tarde.


Quando li “Escute, Zé Ninguém!” lembro do quanto o autor batia pesado nessa questão do entendimento equivocado sobre “raças” e no quanto o ser humano costuma apoiar seus inimigos e massacrar seus amigos. Lá deixa muito claro o quanto racismo é burrice.


A segunda questão que não faz sentido é a resistência nas reparações históricas. Ora, se eu vou lá e roubo seu carro, sua casa, a lei me obriga a ressarcir o prejuízo e, ainda assim, provavelmente vou pagar com medida socioeducativa de privação de liberdade – cadeia, pros íntimos. Sempre foi assim, isso não é invenção contemporânea. Mas entrar num continente, roubar recursos minerais, dizimar populações e culturas e fazer uso da vida humana como força de trabalho forçada não entram nessa regra.


Quando falamos em reparação, não estamos falando que vidas negras tem preço. Nenhuma vida tem. Estamos falando que, em função do que vivemos a partir de 14 de maio, nunca nos foi permitido ter o mínimo de condições de igualdade em nada.


"Era um dia com fome, no outro sem ter o que comer. Sem nome, sem identidade, sem fotografia. O mundo me olhava, mas ninguém queria me ver”.

Eu sou um preto extremamente privilegiado. A ponto de chegar nos lugares e as pessoas questionarem se sou preto (sim, isso aconteceu recentemente, quando fui tomar a vacina contra a COVID na condição de psicólogo). Mas também já fui com um parente brando a um restaurante em Salvador e recebi o cardápio em reais enquanto ele recebeu o cardápio em dólar. E o turista na ocasião era eu. Já fui parado em blitz com mais dois primos pretos e liberado quando viram meu crachá de um emprego público, que deve ser coisa de branco. Enquanto privilegiado, tive boas escolas na cidade que morei (ou era bolsista por minha mãe ser professora, ou minhas tias ajudavam a pagar), tive comida na mesa (mesmo nas épocas de aperto onde minha mãe juntava a feira com uma amiga para poderem colocar comida na boca dos filhos) e tive teto para morar (mesmo nas épocas em que nos abrigamos em casas de parentes). Isso tudo é muito privilégio. O nível de reparação que eu demando ou demandei é infinitamente menor do que o garoto preto que está na esquina de sua casa ou no sinal no caminho de seu trabalho.


O racismo é burrice, não cabe mais discussão sobre isso. Vamos avançar a discussão no outro objeto de minha angústia, que são as reparações. Vamos tratar isso de forma sistêmica, estruturada, institucional, com políticas públicas e de estado. Se não topam fazer assim, eu tenho outra ideia: paguem a indenização financeira que nos devem que a gente mesmo resolve. O Burundi (pequeno país da África) pediu 225 bilhões de reais de indenização e a devolução de objetos roubados, do mesmo jeito que você pediria se entrassem em sua casa e roubassem uma televisão. E quer saber? Pediu foi pouco.


Se você não quer entrar na luta para resolver a questão pra valer, deixa que a gente resolve. Mas vai doer muito mais no seu bolso, que é onde sabemos que seu calo aperta.



Autor: Marcone de Souza Marques Psicólogo - CRP 01/15953


Psicólogo formado pelo UniCEUB em 2008, trabalhou com Psicologia Organizacional nos segmentos de Gestão do Conhecimento, Treinamento e Desenvolvimento e na elaboração de soluções e estratégias de capacitação para diversos públicos. ​Sua atuação na área clínica, especialmente dirigida a adolescentes e adultos, motivou a busca por uma especialização em Teoria Psicanalítica, com vistas a ampliação de seu escopo teórico e qualificação de sua prática clínica. Também se dedica ao estudo de outras abordagens, como a Psicologia Analítica de Jung e a Teoria da Subjetividade de Fernando González Rey.


Linkedin: https://www.linkedin.com/in/marcone-marques-327728a6



Referências:


BRASILEIRO manda carta de apoio a nazistas e eles respondem “não aceitamos latinos”. Geledés Instituto da Mulher Negra. Web, 7 de jan de 2015. Disponível em: <https://bit.ly/3foOQl7>.


EUROPA reluta em indenizar a África pela colonização. El País. Cidade do Cabo, 7 de set de 2020. Disponível em: <https://bit.ly/3oA2fLz>.


REICH, W. Escute, Zé-ninguém!. 2ª ed. São Paulo: Martins Fontes, 2007.



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